A chave da vida: Propostas analíticas
para o estudo da biotecnologia e sua relação com o corpo
Marko Monteiro (markosy@uol.com.br)
Campinas - 2001
Resumo
Este trabalho de pesquisa tem como objetivo propor linhas
interpretativas no estudo da biotecnologia e sua relação
com a corporalidade, focando o Projeto Genoma de forma genérica.
Partindo do pressuposto da ciência como um conjunto de práticas
sociais específicas, busco pensar como elas se relacionam
com as percepções a respeito da natureza da vida e da
corporalidade na nossa cultura, podendo influenciar noções
correntes da relação natureza/cultura, corpo/pessoa.
Algumas conclusões preliminares são de que o estudo do
genoma parte de uma reconfiguração da idéia de vida
enquanto código a ser decifrado, recontextualizando
potencialmente a forma como pensamos o corpo e nossa relação
com ele.
Introdução
"Who," Weber (1) ironized,
"aside from certain big children who are indeed found
in the natural sciences ¾ still believes that the findings
of astronomy, biology, physics, or chemistry, could teach us
anything about the meaning of the world?" Further, who
believed science was the path to Enlightenment goal of
happiness, "aside from a few big children in university
chairs or editorial offices?" Those who claim today
that the Human Genome Project is the "holy grail"
fall squarely within the infantile tradition, as those who
take their ant colonies as metaphors or, worse, metonyms of
all collectivities.
(Rabinow, 1996:185)
Com o recente anúncio do "mapeamento" de todos os
cromossomos do chamado Genoma Humano, ou seja, o
deciframento de todas as bases nitrogenadas que compõem a
estrutura do DNA da nossa espécie2, os meios de comunicação
vêm sendo literalmente inundados com previsões do futuro
onde a engenharia genética e a nova biologia proporcionarão
o bem-estar geral a partir do conhecimento daquilo que a mídia
tem se referido crescentemente como "o mapa da
vida"3. A partir de leituras preliminares a respeito do
Projeto Genoma, tal qual ele vem sendo debatido na imprensa,
televisão e internet, nota-se que as representações mais
correntes a respeito do que está sendo feito pelos
cientistas envolvidos no projeto Genoma se pautam por
imagens de um código secreto que foi revelado. Essas
imagens usadas pelos meios de comunicação nos remetem a
uma época de grandes feitos da ciência, onde corajosos e
brilhantes homens descobrem novos territórios,
possibilitando um crescente bem estar a partir de um maior
controle da natureza pela tecnologia. De novo as metáforas
da técnica controlando, domando e recriando a natureza para
fins humanos tornam-se moeda corrente: agora, nas nossas
concepções do senso comum deste complexo empreendimento
que é o Projeto Genoma.
No Brasil, a mídia buscou, além dessas referências do
progresso pela ciência, ressaltar a suposta liderança
brasileira em uma área específica dos novos avanços da
genética quando ocorreu o mapeamento completo do genoma da
Xylella fastidiosa, uma espécie de bactéria (conhecida
como "amarelinho") que ataca lavouras de laranja4.
Esse feito, primeiro seqüenciamento de um agente causador
de doenças vegetais no mundo, causou um furor na mídia
nacional a respeito das maravilhas da genética, antecipando
em alguns meses a empolgação mundial em torno do evento
jornalístico onde dois chefes de estado, Bill Clinton
(Estados Unidos) e Tony Blair (Grã Bretanha), anunciam a
chegada de uma nova era para a humanidade a partir do
mapeamento do Genoma Humano.
Os termos utilizados pelos diversos agentes do debate público
a respeito do Projeto já nos dizem muito a respeito dos
pressupostos que organizam o encaminhamento corrente da
biotecnologia. Alguns dos principais são deciframento,
mapeamento e código. Ou seja, como se os desenvolvimentos
da genética traduzissem, como a Pedra de Rosetta, uma
linguagem antes inacessível; ou fossem a chave para o
deciframento de um código, que contém todas as
possibilidades da natureza, tudo aquilo que torna algum
organismo aquilo que ele é, a partir de algumas proteínas.
Ocorre como que um "reencantamento" da biologia
como chave para a essência do humano e de todas as suas
qualidades. Esse fascínio pela biologia está aqui implícito
(e por que não explícito) a partir da percepção de que são
os cromossomos, tal como definidos pelas ciências biológicas,
que determinam o organismo na sua totalidade de características,
seja esse organismo uma bactéria, um fungo ou um ser
humano.
A técnica ou a tecnologia, em termos genéricos ¾ aqui
representadas pelas especialidades científicas associadas
ao Projeto Genoma (engenharia genética, bioengenharia,
bioinformática, entre outras) ¾ seriam, numa visão
propalada pela mídia e pelos cientistas, a vitória do ser
humano contra o caos da natureza. Em outras palavras, esses
avanços significariam o "descobrimento" de uma
chave que fornece acesso ao homem e suas tecnologias a todos
os segredos da natureza. Tudo o que antes era imponderável,
inexplicável, num plano inatingível, de repente se torna
banalmente manipulável a partir da tecnologia genética.
Desde traços físicos (altura, cor de cabelo, massa
corporal) até traços ditos de personalidade (felicidade,
depressão, capacidade artística) e outras características
antes tidas como culturalmente constituídas pelas ciências
sociais (alcoolismo, sexualidade, relacionamento com outros)
são agora facilmente detectados em algum gene localizado,
portanto tornados manipuláveis.
O cientista Andrew Simpson, coordenador do Projeto Genoma no
Brasil, numa entrevista transmitida pela televisão5 a
respeito do término do seqüenciamento da Xylella,
explicitou na sua fala que o DNA é a "chave da
vida". Segundo ele, tudo o que o ser humano é
biologicamente está inscrito em seu DNA. Tais afirmações
da genética como mapa da vida são pistas para os
pressupostos que organizam a iniciativa científica
representada pelo Genoma, os quais discutirei adiante.
As novas tecnologias genéticas permitem então um duplo
movimento que precisa ser investigado. Primeiro, promovem
uma "re-essencialização" do humano a partir da
Biologia. Para o cientista social, trata-se de pesquisar
como seu objeto de pesquisa repentinamente lhe foi tomado
pela chamada "nova Biologia". Tudo é determinado
pelos genes de alguma forma, esses se tornam a partir daí a
chave da vida. O outro movimento é a pretensão da
conquista derradeira da natureza pela técnica. Segundo as
concepções aqui discutidas, nada está fora do alcance da
manipulação tecnológica. A partir do momento em que possuímos
as "chaves" deste "código da vida", o
inevitável (característica sempre associada ao termo
"genético") desaparece no seu nível outrora mais
intocado: o da natureza.
Rabinow, um antropólogo que desenvolveu várias pesquisas
com biotecnologia na Califórnia (1996) e na França (1999),
comenta o conceito de "biossocialidade" como
vertente dessa busca da superação da natureza pela técnica:
In the future, the new genetics will cease to be a
biological metaphor for modern society and will become
instead a circulation network of identity terms and
restriction loci, around which and through which a truly new
type of auto production will emerge, which I call
"biosociality". If sociobiology is culture
constructed on the basis of a metaphor of nature, then in
biosociality nature will be made known and remade through
technique and will finally become artificial, just as
culture becomes natural. Were such a project to be brought
to fruition, it would stand as the basis for overcoming the
nature/culture split. (Rabinow, 1996:99).
Aqui Rabinow aponta uma série de questões fundamentais
para o desenvolvimento de pesquisas com biotecnologia por
cientistas sociais. Uma delas é entender as formas como as
novas tecnologias genéticas são apropriadas na vida
social. Segundo ele, a nova genética possibilitará, no
futuro, novas bases para a ação e inter-relação sociais,
fornecendo o vocabulário e os parâmetros em torno dos
quais se constituirão novos sujeitos e novas práticas políticas.
Nesta concepção, a técnica (biotecnologia) suplanta a
natureza por estabelecer em seu lugar as limitações e
bases sobre as quais a vida social ocorre. Num movimento
simultâneo, a vida social se naturaliza, pois se baseia da
mesma forma em fenômenos biológicos, ou genéticos, que
antes intocáveis agora são crescentemente tornados manipuláveis.
O Brasil, especialmente no estado de São Paulo, tem se
envolvido crescentemente com o desenvolvimento da genômica.
Posso citar aqui, por exemplo, o Projeto Genoma do Câncer,
realizado sob responsabilidade do Hospital do Câncer em São
Paulo. Com financiamento conjunto da Ludwig Foundation (com
sede na Suíça) e da FAPESP, o projeto está sendo
coordenado por Andrew Simpson. Esse projeto faz parte do
Projeto Genoma Humano mundial, de certa forma, por fornecer
seqüências de DNA de células humanas, colaborando assim
ao fornecer essas seqüências de DNA para bancos de dados
em todo o mundo. No caso, são seqüências de tumores dos
tipos de cânceres mais comuns na população brasileira,
como os de mama e de pescoço.
A iniciativa de se produzir seqüências de tumores que
ocorrem em humanos se baseia no sucesso obtido a partir do
seqüenciamento do genoma da Xylella fastidiosa. A rede de
laboratórios paulistas envolvidas nesse projeto pioneiro,
denominado ONSA (Organization for Nucleotide Sequencing and
Analysis), é também responsável pelos esforços do
Projeto Genoma do Câncer6.
A decisão de se partir para o seqüenciamento de um genoma
muito mais complexo que o de uma bactéria, onde a concorrência
internacional é muito mais acirrada, foi tomada, segundo
Simpson7, por causa dos avanços obtidos pela equipe da
ONSA, e particularmente pelo desenvolvimento de uma técnica
inovadora de seqüenciamento de genes, patenteada por
Simpson e que está sendo utilizada de forma pioneira no
Brasil. A técnica, denominada ORESTES8, permite que seja
seqüenciada a parte interna do DNA, ou seja, aquelas partes
que realmente correspondem a genes (efetivamente codificam
proteínas).
O fato de a iniciativa brasileira se fundamentar em tumores
de cânceres coloca a doença como parte integrante das
preocupações dos cientistas aqui. De fato um dos objetivos
do Projeto Genoma do Câncer é compreender a diferença
fundamental entre um gene "saudável" e outro
"maligno", ou cancerígeno, de forma a melhor
combater essas doenças. Obviamente, o desenvolvimento de
tratamentos inovadores para está na mira de muitas outras
pesquisas, pelo lucro potencial que tais técnicas podem
oferecer no futuro.
A vida como código
The visual image of the fetus is like the DNA double
helix ¾ not just a signifier of life, but also offered as
the thing-in-itself. The visual fetus, like the gene, is a
technoscientific sacrament. The sign becomes the thing
itself in ordinary magico-secular transubstantiation.
(Haraway, 1997:28)
A citação de Donna Haraway acima menciona um dos dados
mais debatidos atualmente entre aqueles pesquisadores que se
colocam a questão dos impactos das novas tecnologias genéticas
na vida social (sobre isso ver também Greely, 1998 e
Helmreich, 1998). As metáforas da vida que circulam em
nossa cultura estão sendo profundamente alteradas a partir
de cada nova descoberta associada à genética. Tanto que,
como sugere Haraway, ocorre uma associação direta entre a
molécula do DNA com a própria vida. Tal associação, como
fica patente na fala de Andrew Simpson já citada e na mídia
em geral, parece orientar as iniciativas científicas aqui
no Brasil. A mesma questão é colocada nos seguintes termos
por Rabinow, a partir da sua experiência pesquisando
cientistas franceses:
My claim is that the identification of DNA with "the
human person" as a self-evident synecdochical
relationship ¾ the part literally stands for the whole ¾
constitutes a "spiritual" identification. This
identification is a humanistic one in Foucault's sense. To
equate "the human person" with body parts or with
DNA is to provide a solution to a problem that has not yet
been adequately posed. "Life" is problematic today
because new understandings and new technologies that are
involved in giving it a form are producing results that
escape the philosophical self-understanding provided by both
the classical world and the Christian tradition. No new
political or ethical vocabularies have adequately come to
terms with it either. As the technoscientific elaboration
continues, anxiety reigns in certain quarters of the city,
resulting in a situation that I will later call
"purgatorial". (Rabinow, 1999:16)
O que é sugerido pelas minhas primeiras aproximações com
o Projeto Genoma é de que há uma percepção do que seja a
vida que organiza os pressupostos sobre os quais trabalham
os cientistas do Projeto, no caso brasileiro e, talvez,
outros envolvidos em pesquisa genética. Essa percepção,
bem resumida por Helmreich (1998), associa a vida ao
processamento de informação. O DNA, dessa forma, é
metaforizado como um "programa" (como num
computador), um código, uma auto-descrição contida em
cada organismo. Helmreich aponta inclusive que este tipo de
percepção da natureza da vida enquanto processo de informação
estava presente desde a primeira descrição da molécula do
DNA, feita em 1953 por Watson e Crick.
Watson and Crick's later explanation of DNA's structure
and function in 1953 in fact used the rhetoric of
programming to suggest that DNA was a coded self-description
folded up in organisms. (Helmreich, 1998:6)
Algumas vertentes teóricas, penso, são particularmente úteis
na compreensão que busco elaborar da pesquisa social com
biotecnologia. Primeiramente, a Sociologia da Ciência, tal
como discutida em autores como Bruno Latour (1997, 2000).
Segundo, os debates em torno da corporalidade em vertentes
teóricas como o feminismo (ver Strathern, 1988; Butler,
1990 e 1993; Bordo, 1989 e 1993), as Ciências Sociais
(Bourdieu, 1997; Csordas, 1990; Scheper-Hughes e Lock, 1987)
e a Filosofia (Foucault, 1993). Busco aqui propor
alternativas analíticas para efetuar um estudo sociológico
de uma prática científica particular, que é o Projeto
Genoma. Busco pensar como essa prática social específica
lança mão de sua "cientificidade" para legitimar
um certo discurso sobre o corpo, sobre como a biologia
fundamenta a corporalidade.
Ambos os eixos, ciência e corporalidade, não se separam tão
facilmente. Toda a discussão das ciências sociais, da
filosofia e do feminismo abre caminho para o exame de como a
biologia se constitui como esfera privilegiada da
"natureza" enquanto a priori de processos
culturais. Essa constituição é, nessa perspectiva, um
processo social complexo, que envolve um desenvolvimento
histórico particular, relações de poder específicas e a
legitimação através de instâncias como a própria ciência.
Essas perspectivas fazem assim a interseção com a
sociologia da ciência. Essa vertente de análise, por sua
vez, busca perceber a ciência como prática social, o que
tem conseqüências epistemológicas importantes (Friedman,
1998), no sentido de questionar o discurso científico
enquanto portador de uma racionalidade e uma validade
universal. Enquanto prática social a ciência busca então
se legitimar, constituindo uma esfera intocável: a da
"verdade científica". Friedman, ao discutir o que
ele denomina Sociologia do Saber Científico (Sociology of
Scientific Knowledge, ou SSK) atenta para esse movimento:
On the one hand, this program has inspired innovative
work in the history of science that has applied methods of
social history to key events in the evolution of modern
science so as to yield extraordinarily rich delineations of
the wider social, cultural and political context of these
events. On the other hand, however, SSK, both theoretical
and applied, has been framed by an explicitly philosophical
agenda ¾ an agenda that aims to reject the traditional
philosophical ideal of universal standards of rationality,
objectivity and truth (which ideal has ,of course, been
traditionally taken to be paradigmatically exemplified in
modern science itself) in favor of a relativistic conception
of scientific rationality, objectivity, and truth that
grounds these concepts, in the end, in local and particular
social and cultural circumstances. (Friedman,
1998:239-40)
Essa postura por ele associada à Sociologia da Ciência é
moeda corrente entre as feministas engajadas em desconstruir
as bases biológicas do gênero, em análises que buscam
relativizar determinações biológicas. Autoras como Judith
Butler (1990, 1993) ou Donna Haraway (1991) recusam
explicitamente qualquer recurso a uma racionalidade que se
pense como universal. Muito das análises dessas autoras se
baseia na desconstrução dos pressupostos universalistas do
pensamento racional ocidental, revelando nesse pensamento
hierarquias de gênero, ou mostrando como estruturas sociais
tentam se naturalizar ao remeter a esferas universalizantes
como a ciência e a biologia.
O corpo recontextualizado pela ciência
Dessa forma, esse tipo de pesquisa pressupõe uma reflexão
a respeito desses pressupostos em torno da cientificidade,
tema de muitos dos autores citados aqui como referência.
Ambos os eixos teóricos que mencionei, tanto da sociologia
da ciência como da análise social da corporalidade (seja
ela em sua vertente feminista ou não), vão colocar a questão
da biologia enquanto naturalizada pelo pensamento científico-racional.
A análise social do corpo, ao se apropriar de um objeto
comumente associado às ciências biológicas, muitas vezes
se coloca questões parecidas às citadas por Friedman.
Como, por exemplo, na discussão da feminista Susan Bordo
(1989) a respeito das apropriações culturais do corpo e da
corporalidade. Segundo ela, o corpo deve ser analisado como
um locus prático e direto de controle social, não somente
um texto ou depositário de significados socialmente construídos.
Bordo, a exemplo de outras feministas contemporâneas,
inspira-se nas análises genealógicas de Foucault (1993)
para perceber como o corpo, tido na cultura ocidental como
artefato natural, anterior à cultura, na verdade é
constituído pelo poder, sendo parte integrante de práticas
sociais de poder.
Bourdieu (1997) analisa o corpo de forma bastante
semelhante, ao debater seu conceito de habitus. O habitus é
composto de predisposições incorporadas nos indivíduos. O
corpo, nesse quadro teórico, é então foco de construções
de práticas sociais significativas, não sendo inerte
frente a imputações de sentido por parte dos sujeitos. A
corporalidade pode ser vista não como portadora de signos
apenas, mas como protagonista e local de materialização de
concepções culturais, abrangendo desde gênero e raça até
hierarquias de idade ou profissionais.
Autores como Butler (1990, 1993), inspiradas em Foucault e
outros, fornecem também subsídios para esta discussão ao
pesquisar a construção do gênero. Buscando escapar das
oposições preestabelecidas natureza/cultura e corpo/mente,
Butler constrói uma análise de como o corpo é
naturalizado pela cultura ocidental, ao mesmo tempo em que
hierarquias sociais baseadas em diferenças corporais são
tornadas assim "naturais" e portanto tidas como
imutáveis.
Em minhas pesquisas anteriores, na área de relações
sociais de gênero (Monteiro, 2000a e 2000b), me centrei
basicamente nas representações a respeito da masculinidade
em revistas. Nesses esforços tive contato bastante intenso
com o debate feminista em torno do conceito "gênero".
O corpo, enquanto base para a formulação cultural de
representações de gênero que fundamentam também
hierarquias sociais está sempre presente nesses debates.
A intenção de pesquisar a ciência e como esta reconstrói
o corpo é de certa maneira um desenvolvimento de minhas
pesquisas anteriores com masculinidade. Pois se antes me
centrei em representações midiáticas, a própria teoria
feminista indicava um certo esgotamento desse tipo de
pesquisa fundamentada no gênero (masculino e feminino),
apontando um caminho mais frutífero naquelas instâncias
onde ele efetivamente se construía, a biologia sendo uma
das mais importantes.
Pois se as hierarquias sociais codificadas no corpo através
de uma ordem de gênero particular (que podemos
resumidamente chamar de patriarcal, ou de preponderância do
masculino sobre o feminino) são, a partir da biologia,
naturalizadas, não basta somente estudar as representações
de masculino e feminino codificadas na cultura (sob pena de
constamentemente validar a oposição masculino/feminino
como "natural").
Feministas como Judith Butler, Donna Haraway e Teresa de
Lauretis (para citar as mais debatidas no Brasil) apontam
para uma certa desconstrução das formas como o corpo é
essencializado enquanto portador de um gênero, característica
essa que, ao remeter a uma essência biológica,
naturalizaria uma ordem hierárquica. O estudo que pretendo
fazer de como o corpo é construído e reconstruído pela ciência
portanto tem como pano de fundo esse caminho teórico
percorrido em pesquisas anteriores, exposto resumidamente
aqui.
A nova genética se relaciona de forma íntima com as nossas
concepções de corpo e de pessoa. Rabinow (1996) mostra
isso ao analisar o caso John Moore vs. UCLA. John Moore,
paciente num hospital universitário, processou a University
of California at Los Angeles, UCLA, porque seus cientistas
patentearam uma linhagem imortal de células produzida a
partir de células retiradas de seu próprio corpo. Aqui
entram em embate, segundo Rabinow, duas concepções de
corpo/pessoa. Uma, própria do Cristianismo, que vê no
corpo um lugar sagrado, repositório do espírito. Outra,
desenvolvida no contexto do liberalismo capitalista, que vê
o corpo e a pessoa como ator racional, como negociador
contratual.
Today, for others, however, it is less "the
body" than fragmented body matter which has potential
value to the industry, science and the individual. The
approach to "the body" found in contemporary
biotechnology and genetics fragments it into a potentially
discrete, knowable, and exploitable reservoir of molecular
and biochemical products and events. By reason of its
commitment to fragmentation, there is literally no
conception of the person as whole underlying these
particular technological practices. (Rabinow, 1996:150)
O aspecto econômico, como fica claro no exemplo acima, pesa
muito nos rumos tomados pelas pesquisas do Genoma. Patentes
que podem render bilhões de dólares para a indústria
farmacêutica, por exemplo quando novos medicamentos são
desenvolvidos a partir de pesquisas genéticas, são objeto
de disputa ferrenha entre governos, multinacionais e
instituições científicas. Pesquisadores do tema como
Rabinow (1996) e Cunningham (1998) citam a estreita colaboração
da comunidade acadêmica e as indústrias de biotecnologia
no desenvolvimento do projeto Genoma. Nos projetos
brasileiros houve a participação de agências de fomento
governamentais (FAPESP) em associação com as indústrias
da cana-de-açúcar e da laranja (os projetos Xylella
fastidiosa e cana-de-açúcar, por exemplo, ambos já concluídos).
Cunningham (1998), seguindo esse raciocínio, analisa como
práticas científicas, em simbiose com práticas
comerciais, atuam de forma colonial em relação aos povos
de países periféricos. Por exemplo, o Projeto Diversidade
Genoma Humano, onde amostras de DNA de povos aborígenes do
mundo todo são coletadas e armazenadas em linhagens
imortais (células que se reproduzem indefinidamente). Tal
riqueza genética, segundo a autora, está sendo pilhada de
povos mais pobres, favorecendo pesquisadores e laboratórios
farmacêuticos dos Estados Unidos, Europa e Japão.
Multinacionais destes países, segundo ela, detêm
atualmente 99% das patentes de produtos provenientes da
biotecnologia. Enquanto isso, os países periféricos, que
possuem 50% da biodiversidade mundial, são forçados a
comprar produtos feitos no exterior a partir de plantas
nativas. Assim, Cunningham discute como esse novo contexto
altera as práticas políticas mundiais, a partir da
organização de frentes de resistência às empresas
multinacionais de biotecnologia, no contexto da atuação
das Organizações Não-Governamentais (ONG's).
Um outro aspecto importante das relações entre o contexto
capitalista e o corpo é apontado por Featherstone (1991).
Segundo ele, a cultura de consumo atual coloca formas de
interagir com o corpo novas e particulares, que cada vez
mais associam o corpo a uma máquina que deve constantemente
ser monitorada e controlada. Esse controle, exercido
enquanto responsabilidade individual de cada um (associado a
valores como beleza estética e saúde), na verdade compõe
um aparato de controle e de docilização dos corpos (ver
também Foucault, 1987). Saberes produzidos pela ciência se
associam à grande indústria e ao aparato do Estado,
fornecendo ferramentas de naturalização e legitimação de
formas de monitoramento dos corpos na busca incansável de
saúde e beleza.
The vast range of dietary, slimming, exercise and
cosmetic body-maintenance products which are currently
produced, marketed and sold point to the significance of
appearance and bodily preservation within late-capitalist
society. Consumer culture latches onto the prevalent
self-preservationist conception of the body, which
encourages the individual to adopt instrumental strategies
to combat deterioration and decay (applauded too by state
bureaucracies who seek to reduce health costs by educating
the public against bodily neglect) and combines it with the
notion that the body is a vehicle of pleasure and
self-expression. (Featherstone, 1991:170)
Tais concepções maquinísticas ou instrumentais do corpo,
próprias do contexto do capitalismo contemporâneo, podem
estar associadas a iniciativas científicas como o Projeto
Genoma. As técnicas provenientes dos desenvolvimentos da
nova genética prometem ao público inusitadas formas de
auto-controle do corpo, desde novas tecnologias
reprodutivas, curas para doenças tidas como incuráveis até
um maior controle sobre o próprio corpo.
Esse controle associa o corpo à natureza de cada pessoa;
portanto esse controle é vendido, pelo menos em alguns
setores da mídia, como controle individual e pessoal sobre
a natureza de cada um. Concepções da genética como
"chave da vida" são portanto inevitavelmente
incorporados a uma sociedade de consumo, e pensar como isto
ocorre fornece mais subsídios para a compreensão do
desenrolar do projeto, no âmbito da "ciência
pura" praticada em laboratórios.
Conclusão
Como vimos no decorrer do trabalho, a pesquisa social de práticas
científicas tem conseqüências bastante claras no que
concerne aos pressupostos que devem fundamentar a compreensão
de ciência. Efetuar uma pesquisa social de práticas científicas
requer a formulação de um problema de pesquisa bastante
particular, que recoloca a questão da ciência, tornando-a
prática (e não desvendamento da verdade, por exemplo).
Embora nem todos os sociólogos da ciência concordariam com
essa formulação proposta, creio que esse é o primeiro
passo na compreensão de como podemos, enquanto cientistas
sociais, colaborar para o estudo da ciência. Existem aí
questões políticas bastante óbvias, as quais as
feministas (cuja literatura me é mais familiar) têm
sistematicamente explicitado. Outras possibilidades de se
pensar essa questão política, como vimos no final do
texto, são as associações entre instituições de
pesquisa e conglomerados econômicos, que estão
crescentemente redefinindo a prática científica enquanto
atividade pragmática e instrumental, não mais como
"ciência pura".
Por isso mesmo creio que se torna cada vez mais urgente uma
incursão de cientistas sociais no campo do estudo das
biotecnologias, pelo potencial que tais ciências têm de
recontextualizar nossas concepções mais arraigadas de
natureza/cultura, de orgânico/mecânico e de criar novas
bases para a forma como nos relacionamos com nosso corpo.
Esses novos contextos, apesar do otimismo de muitos setores,
nem sempre resultam em benefícios para a maioria. E somente
a partir de uma crescente compreensão desses fenômenos é
que poderemos melhor avaliar aqueles que queremos perseguir,
e aqueles que queremos evitar.
Bibliografia
BORDO, Susan (1993). Unbearable Weight: Feminism, Western
Culture and the Body. Berkeley: University of California
Press.
BORDO, Susan e JAGGAR, Alison (eds.) (1989).
Gender/Body/Knowledge. New Brunswick: Rutgers.
BOURDIEU, Pierre (1997). Outline of a theory of practice.
Cambridge: Cambridge University Press.
BUTLER, Judith (1993). Bodies that Matter: on the discursive
limits of "sex". New York: Routledge.
BUTLER; Judith (1990). Gender trouble; feminism and the
subversion of identity. New York and London: Routledge.
CSORDAS, Thomas (1990). "Embodiment as a paradigm for
anthropology". Ethos, 18:5-47.
CUNNINGHAM, Hilary (1998). "Colonial Encounters in
Postcolonial Contexts: Patenting Indigenous DNA and the
Human Genome Diversity Project". Critique of
Anthropology 18(2):205-33.
FEATHERSTONE, Mike (1991). "The Body in Consumer
Culture". In Featherstone, Hepworth e Turner (eds.).
The Body: Social Process and Cultural Theory. London:Sage,
pp. 170-96.
FOUCAULT, Michel (1987). Vigiar e Punir: nascimento da prisão.
Petrópolis: Vozes.
FOUCAULT, Michel (1993). História da sexualidade 1: a
vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal.
FRIEDMAN, Michael (1998). "On the Sociology of
Scientific Knowledge and its Philosophical Agenda". In
Studies in the History and Philosophy of Science,
29A(2):239-71.
GREELY, Henry T. (1998). "Legal, Ethical and Social
Issues in Human Genome Research". Annual Review of
Anthropology 27:473-502.
HARAWAY, Donna (1991). "A Cyborg Manifesto:Science,
Technology, and Socialist-Feminism in the Late Twentieth
Century". In Simians, Cyborgs and Women: The
Reinvention of Nature. London:Free Association Books, pp.
149-81.
HARAWAY, Donna (1997). "The Virtual Speculum in the New
World Order". Feminist Review 55:22-72.
HELMREICH, Stefan (1998). Silicon Second Nature: Culturing
Artificial Life in a Digital World. Berkeley: University of
California Press.
LATOUR, Bruno (2000). Ciência em ação: como seguir
cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo:
Editora UNESP.
LATOUR, Bruno e WOOLGAR, Steve (1997). A vida de laboratório:
a produção dos fatos científicos. Rio de Janeiro:
Relume-Dumará.
MONTEIRO, Marko (2000)(a). Tenham Piedade dos Homens!
Masculinidades em mudança. Juiz de Fora: FEME.
MONTEIRO, Marko (2000)(b). Masculinidade em revista: um
estudo da VIP Exame, Sui Generis e Homens. Dissertação de
Mestrado apresentada ao Departamento de Antropologia da
Universidade Estadual de Campinas.
RABINOW, Paul (1996). Essays on the Anthropology of Reason.
Princeton: Princeton University Press.
RABINOW, Paul (1996). Making PCR: A story of Biotechnology.
Chicago: University of Chicago Press.
RABINOW, Paul (1999). French DNA: Trouble in Purgatory.
Chicago: The University of Chicago Press.
SCHEPER-HUGHES, Nancy e LOCK, Margaret (1987). "The
Mindful Body: A Prolegomenon to future work in Medical
Anthropology". Medical Anthropology Quarterly,
1(1):6-39.
STRATHERN, Marilyn (1988). The Gender of the Gift. London:
University of California Press.
Notas:
1 Rabinow cita aqui o texto de Max Weber, "Science as
Vocation", in H. Gerth and C. Wright Mills (eds.), From
Max Weber (New York: Oxford University Press, 1946), p. 137.
2 Genoma é o conjunto de genes de cada espécie. Mapear ou
sequenciar, nesse caso, significa detectar a ordem correta
das bases nitrogenadas que compõem a molécula de DNA,
presente no núcleo de toda célula. Essas bases (Adenina,
Guanina, Citosina e Timina) codificam a produção de proteínas.
3 Ver por exemplo a reportagem "O mapa da vida"
(Isto é, 1569, outubro de 1999), além das inúmeras notícias
em todos os jornais brasileiros e estrangeiros, que seguem
todos num tom muito semelhante.
4 A Xylella fastidiosa, causadora do amarelinho nas lavouras
de laranja brasileiras, tem um impacto econômico importante
na economia brasileira. A doença atinge 34% dos pomares
paulistas, afetando uma indústria que movimenta cerca de
US$ 2 bilhões anualmente, gerando 400.000 empregos diretos
e indiretos no estado de São Paulo. O Brasil é o maior
produtor de laranja do mundo com 34,8% da produção total,
seguido pelos Estados Unidos, com 17,8% (fonte: "O mapa
da Xylella", Jornal da UNICAMP, fevereiro de 2000, p.
7).
5 Entrevista concedida a Boris Casoy, em seu programa
Passando a limpo, na Rede Record. Exibido em 05/03/2000.
6 O projeto está sendo tocado pela equipe do Instituto
Ludwig no Brasil, além de cinco centros paulistas, onde são
realizados os trabalhos de seqüenciamento: Instituto de Química
da USP, Hemocentro da UNICAMP, Faculdade de Medicina da USP
em Ribeirão Preto, Escola Paulista de Medicina e Faculdade
de Medicina da USP. Cada centro possui um seqüenciador de
alta capacidade, todos coordenados por Andrew Simpson do
Instituto Ludwig.
7 Ver "Genoma Especial: Projeto Genoma do Câncer",
encarte de Notícias FAPESP, n.º 40, março de 1999 (disponível
no site http://www.fapesp.br/encapg1.htm).
8 Open Reading Frames EST sequences. As seqüências de
nucleotideos geradas por essa técnica tem o mesmo nome. EST
são expressed sequences tags, ou etiquetas de seqüencias
expressas. A diferença do ORESTES para outras técnicas é
a sua capacidade de gerar seqüências de DNA que
efetivamente codificam proteínas. Como coloca Simpson
("Genoma Especial: Projeto Genoma do Câncer",
op.cit.), apenas 3% do genoma humano são genes, ou seja,
codifica proteínas. São esses 3% os mais valiosos para a
futura pesquisa genética.