A chave da vida: Propostas analíticas para o estudo da biotecnologia e sua relação com o corpo

Marko Monteiro (markosy@uol.com.br)

Campinas - 2001



Resumo

Este trabalho de pesquisa tem como objetivo propor linhas interpretativas no estudo da biotecnologia e sua relação com a corporalidade, focando o Projeto Genoma de forma genérica. Partindo do pressuposto da ciência como um conjunto de práticas sociais específicas, busco pensar como elas se relacionam com as percepções a respeito da natureza da vida e da corporalidade na nossa cultura, podendo influenciar noções correntes da relação natureza/cultura, corpo/pessoa. Algumas conclusões preliminares são de que o estudo do genoma parte de uma reconfiguração da idéia de vida enquanto código a ser decifrado, recontextualizando potencialmente a forma como pensamos o corpo e nossa relação com ele.


Introdução


"Who," Weber (1) ironized, "aside from certain big children who are indeed found in the natural sciences ¾ still believes that the findings of astronomy, biology, physics, or chemistry, could teach us anything about the meaning of the world?" Further, who believed science was the path to Enlightenment goal of happiness, "aside from a few big children in university chairs or editorial offices?" Those who claim today that the Human Genome Project is the "holy grail" fall squarely within the infantile tradition, as those who take their ant colonies as metaphors or, worse, metonyms of all collectivities. 
(Rabinow, 1996:185)



Com o recente anúncio do "mapeamento" de todos os cromossomos do chamado Genoma Humano, ou seja, o deciframento de todas as bases nitrogenadas que compõem a estrutura do DNA da nossa espécie2, os meios de comunicação vêm sendo literalmente inundados com previsões do futuro onde a engenharia genética e a nova biologia proporcionarão o bem-estar geral a partir do conhecimento daquilo que a mídia tem se referido crescentemente como "o mapa da vida"3. A partir de leituras preliminares a respeito do Projeto Genoma, tal qual ele vem sendo debatido na imprensa, televisão e internet, nota-se que as representações mais correntes a respeito do que está sendo feito pelos cientistas envolvidos no projeto Genoma se pautam por imagens de um código secreto que foi revelado. Essas imagens usadas pelos meios de comunicação nos remetem a uma época de grandes feitos da ciência, onde corajosos e brilhantes homens descobrem novos territórios, possibilitando um crescente bem estar a partir de um maior controle da natureza pela tecnologia. De novo as metáforas da técnica controlando, domando e recriando a natureza para fins humanos tornam-se moeda corrente: agora, nas nossas concepções do senso comum deste complexo empreendimento que é o Projeto Genoma.
No Brasil, a mídia buscou, além dessas referências do progresso pela ciência, ressaltar a suposta liderança brasileira em uma área específica dos novos avanços da genética quando ocorreu o mapeamento completo do genoma da Xylella fastidiosa, uma espécie de bactéria (conhecida como "amarelinho") que ataca lavouras de laranja4. Esse feito, primeiro seqüenciamento de um agente causador de doenças vegetais no mundo, causou um furor na mídia nacional a respeito das maravilhas da genética, antecipando em alguns meses a empolgação mundial em torno do evento jornalístico onde dois chefes de estado, Bill Clinton (Estados Unidos) e Tony Blair (Grã Bretanha), anunciam a chegada de uma nova era para a humanidade a partir do mapeamento do Genoma Humano.
Os termos utilizados pelos diversos agentes do debate público a respeito do Projeto já nos dizem muito a respeito dos pressupostos que organizam o encaminhamento corrente da biotecnologia. Alguns dos principais são deciframento, mapeamento e código. Ou seja, como se os desenvolvimentos da genética traduzissem, como a Pedra de Rosetta, uma linguagem antes inacessível; ou fossem a chave para o deciframento de um código, que contém todas as possibilidades da natureza, tudo aquilo que torna algum organismo aquilo que ele é, a partir de algumas proteínas. Ocorre como que um "reencantamento" da biologia como chave para a essência do humano e de todas as suas qualidades. Esse fascínio pela biologia está aqui implícito (e por que não explícito) a partir da percepção de que são os cromossomos, tal como definidos pelas ciências biológicas, que determinam o organismo na sua totalidade de características, seja esse organismo uma bactéria, um fungo ou um ser humano.
A técnica ou a tecnologia, em termos genéricos ¾ aqui representadas pelas especialidades científicas associadas ao Projeto Genoma (engenharia genética, bioengenharia, bioinformática, entre outras) ¾ seriam, numa visão propalada pela mídia e pelos cientistas, a vitória do ser humano contra o caos da natureza. Em outras palavras, esses avanços significariam o "descobrimento" de uma chave que fornece acesso ao homem e suas tecnologias a todos os segredos da natureza. Tudo o que antes era imponderável, inexplicável, num plano inatingível, de repente se torna banalmente manipulável a partir da tecnologia genética. Desde traços físicos (altura, cor de cabelo, massa corporal) até traços ditos de personalidade (felicidade, depressão, capacidade artística) e outras características antes tidas como culturalmente constituídas pelas ciências sociais (alcoolismo, sexualidade, relacionamento com outros) são agora facilmente detectados em algum gene localizado, portanto tornados manipuláveis.
O cientista Andrew Simpson, coordenador do Projeto Genoma no Brasil, numa entrevista transmitida pela televisão5 a respeito do término do seqüenciamento da Xylella, explicitou na sua fala que o DNA é a "chave da vida". Segundo ele, tudo o que o ser humano é biologicamente está inscrito em seu DNA. Tais afirmações da genética como mapa da vida são pistas para os pressupostos que organizam a iniciativa científica representada pelo Genoma, os quais discutirei adiante.
As novas tecnologias genéticas permitem então um duplo movimento que precisa ser investigado. Primeiro, promovem uma "re-essencialização" do humano a partir da Biologia. Para o cientista social, trata-se de pesquisar como seu objeto de pesquisa repentinamente lhe foi tomado pela chamada "nova Biologia". Tudo é determinado pelos genes de alguma forma, esses se tornam a partir daí a chave da vida. O outro movimento é a pretensão da conquista derradeira da natureza pela técnica. Segundo as concepções aqui discutidas, nada está fora do alcance da manipulação tecnológica. A partir do momento em que possuímos as "chaves" deste "código da vida", o inevitável (característica sempre associada ao termo "genético") desaparece no seu nível outrora mais intocado: o da natureza.
Rabinow, um antropólogo que desenvolveu várias pesquisas com biotecnologia na Califórnia (1996) e na França (1999), comenta o conceito de "biossocialidade" como vertente dessa busca da superação da natureza pela técnica:

In the future, the new genetics will cease to be a biological metaphor for modern society and will become instead a circulation network of identity terms and restriction loci, around which and through which a truly new type of auto production will emerge, which I call "biosociality". If sociobiology is culture constructed on the basis of a metaphor of nature, then in biosociality nature will be made known and remade through technique and will finally become artificial, just as culture becomes natural. Were such a project to be brought to fruition, it would stand as the basis for overcoming the nature/culture split. (Rabinow, 1996:99).

Aqui Rabinow aponta uma série de questões fundamentais para o desenvolvimento de pesquisas com biotecnologia por cientistas sociais. Uma delas é entender as formas como as novas tecnologias genéticas são apropriadas na vida social. Segundo ele, a nova genética possibilitará, no futuro, novas bases para a ação e inter-relação sociais, fornecendo o vocabulário e os parâmetros em torno dos quais se constituirão novos sujeitos e novas práticas políticas.
Nesta concepção, a técnica (biotecnologia) suplanta a natureza por estabelecer em seu lugar as limitações e bases sobre as quais a vida social ocorre. Num movimento simultâneo, a vida social se naturaliza, pois se baseia da mesma forma em fenômenos biológicos, ou genéticos, que antes intocáveis agora são crescentemente tornados manipuláveis.
O Brasil, especialmente no estado de São Paulo, tem se envolvido crescentemente com o desenvolvimento da genômica. Posso citar aqui, por exemplo, o Projeto Genoma do Câncer, realizado sob responsabilidade do Hospital do Câncer em São Paulo. Com financiamento conjunto da Ludwig Foundation (com sede na Suíça) e da FAPESP, o projeto está sendo coordenado por Andrew Simpson. Esse projeto faz parte do Projeto Genoma Humano mundial, de certa forma, por fornecer seqüências de DNA de células humanas, colaborando assim ao fornecer essas seqüências de DNA para bancos de dados em todo o mundo. No caso, são seqüências de tumores dos tipos de cânceres mais comuns na população brasileira, como os de mama e de pescoço.
A iniciativa de se produzir seqüências de tumores que ocorrem em humanos se baseia no sucesso obtido a partir do seqüenciamento do genoma da Xylella fastidiosa. A rede de laboratórios paulistas envolvidas nesse projeto pioneiro, denominado ONSA (Organization for Nucleotide Sequencing and Analysis), é também responsável pelos esforços do Projeto Genoma do Câncer6. 
A decisão de se partir para o seqüenciamento de um genoma muito mais complexo que o de uma bactéria, onde a concorrência internacional é muito mais acirrada, foi tomada, segundo Simpson7, por causa dos avanços obtidos pela equipe da ONSA, e particularmente pelo desenvolvimento de uma técnica inovadora de seqüenciamento de genes, patenteada por Simpson e que está sendo utilizada de forma pioneira no Brasil. A técnica, denominada ORESTES8, permite que seja seqüenciada a parte interna do DNA, ou seja, aquelas partes que realmente correspondem a genes (efetivamente codificam proteínas). 
O fato de a iniciativa brasileira se fundamentar em tumores de cânceres coloca a doença como parte integrante das preocupações dos cientistas aqui. De fato um dos objetivos do Projeto Genoma do Câncer é compreender a diferença fundamental entre um gene "saudável" e outro "maligno", ou cancerígeno, de forma a melhor combater essas doenças. Obviamente, o desenvolvimento de tratamentos inovadores para está na mira de muitas outras pesquisas, pelo lucro potencial que tais técnicas podem oferecer no futuro.


A vida como código 

The visual image of the fetus is like the DNA double helix ¾ not just a signifier of life, but also offered as the thing-in-itself. The visual fetus, like the gene, is a technoscientific sacrament. The sign becomes the thing itself in ordinary magico-secular transubstantiation.
(Haraway, 1997:28)


A citação de Donna Haraway acima menciona um dos dados mais debatidos atualmente entre aqueles pesquisadores que se colocam a questão dos impactos das novas tecnologias genéticas na vida social (sobre isso ver também Greely, 1998 e Helmreich, 1998). As metáforas da vida que circulam em nossa cultura estão sendo profundamente alteradas a partir de cada nova descoberta associada à genética. Tanto que, como sugere Haraway, ocorre uma associação direta entre a molécula do DNA com a própria vida. Tal associação, como fica patente na fala de Andrew Simpson já citada e na mídia em geral, parece orientar as iniciativas científicas aqui no Brasil. A mesma questão é colocada nos seguintes termos por Rabinow, a partir da sua experiência pesquisando cientistas franceses:

My claim is that the identification of DNA with "the human person" as a self-evident synecdochical relationship ¾ the part literally stands for the whole ¾ constitutes a "spiritual" identification. This identification is a humanistic one in Foucault's sense. To equate "the human person" with body parts or with DNA is to provide a solution to a problem that has not yet been adequately posed. "Life" is problematic today because new understandings and new technologies that are involved in giving it a form are producing results that escape the philosophical self-understanding provided by both the classical world and the Christian tradition. No new political or ethical vocabularies have adequately come to terms with it either. As the technoscientific elaboration continues, anxiety reigns in certain quarters of the city, resulting in a situation that I will later call "purgatorial". (Rabinow, 1999:16)

O que é sugerido pelas minhas primeiras aproximações com o Projeto Genoma é de que há uma percepção do que seja a vida que organiza os pressupostos sobre os quais trabalham os cientistas do Projeto, no caso brasileiro e, talvez, outros envolvidos em pesquisa genética. Essa percepção, bem resumida por Helmreich (1998), associa a vida ao processamento de informação. O DNA, dessa forma, é metaforizado como um "programa" (como num computador), um código, uma auto-descrição contida em cada organismo. Helmreich aponta inclusive que este tipo de percepção da natureza da vida enquanto processo de informação estava presente desde a primeira descrição da molécula do DNA, feita em 1953 por Watson e Crick.

Watson and Crick's later explanation of DNA's structure and function in 1953 in fact used the rhetoric of programming to suggest that DNA was a coded self-description folded up in organisms. (Helmreich, 1998:6)

Algumas vertentes teóricas, penso, são particularmente úteis na compreensão que busco elaborar da pesquisa social com biotecnologia. Primeiramente, a Sociologia da Ciência, tal como discutida em autores como Bruno Latour (1997, 2000). Segundo, os debates em torno da corporalidade em vertentes teóricas como o feminismo (ver Strathern, 1988; Butler, 1990 e 1993; Bordo, 1989 e 1993), as Ciências Sociais (Bourdieu, 1997; Csordas, 1990; Scheper-Hughes e Lock, 1987) e a Filosofia (Foucault, 1993). Busco aqui propor alternativas analíticas para efetuar um estudo sociológico de uma prática científica particular, que é o Projeto Genoma. Busco pensar como essa prática social específica lança mão de sua "cientificidade" para legitimar um certo discurso sobre o corpo, sobre como a biologia fundamenta a corporalidade.
Ambos os eixos, ciência e corporalidade, não se separam tão facilmente. Toda a discussão das ciências sociais, da filosofia e do feminismo abre caminho para o exame de como a biologia se constitui como esfera privilegiada da "natureza" enquanto a priori de processos culturais. Essa constituição é, nessa perspectiva, um processo social complexo, que envolve um desenvolvimento histórico particular, relações de poder específicas e a legitimação através de instâncias como a própria ciência.
Essas perspectivas fazem assim a interseção com a sociologia da ciência. Essa vertente de análise, por sua vez, busca perceber a ciência como prática social, o que tem conseqüências epistemológicas importantes (Friedman, 1998), no sentido de questionar o discurso científico enquanto portador de uma racionalidade e uma validade universal. Enquanto prática social a ciência busca então se legitimar, constituindo uma esfera intocável: a da "verdade científica". Friedman, ao discutir o que ele denomina Sociologia do Saber Científico (Sociology of Scientific Knowledge, ou SSK) atenta para esse movimento:

On the one hand, this program has inspired innovative work in the history of science that has applied methods of social history to key events in the evolution of modern science so as to yield extraordinarily rich delineations of the wider social, cultural and political context of these events. On the other hand, however, SSK, both theoretical and applied, has been framed by an explicitly philosophical agenda ¾ an agenda that aims to reject the traditional philosophical ideal of universal standards of rationality, objectivity and truth (which ideal has ,of course, been traditionally taken to be paradigmatically exemplified in modern science itself) in favor of a relativistic conception of scientific rationality, objectivity, and truth that grounds these concepts, in the end, in local and particular social and cultural circumstances. (Friedman, 1998:239-40)

Essa postura por ele associada à Sociologia da Ciência é moeda corrente entre as feministas engajadas em desconstruir as bases biológicas do gênero, em análises que buscam relativizar determinações biológicas. Autoras como Judith Butler (1990, 1993) ou Donna Haraway (1991) recusam explicitamente qualquer recurso a uma racionalidade que se pense como universal. Muito das análises dessas autoras se baseia na desconstrução dos pressupostos universalistas do pensamento racional ocidental, revelando nesse pensamento hierarquias de gênero, ou mostrando como estruturas sociais tentam se naturalizar ao remeter a esferas universalizantes como a ciência e a biologia.

O corpo recontextualizado pela ciência

Dessa forma, esse tipo de pesquisa pressupõe uma reflexão a respeito desses pressupostos em torno da cientificidade, tema de muitos dos autores citados aqui como referência. Ambos os eixos teóricos que mencionei, tanto da sociologia da ciência como da análise social da corporalidade (seja ela em sua vertente feminista ou não), vão colocar a questão da biologia enquanto naturalizada pelo pensamento científico-racional. A análise social do corpo, ao se apropriar de um objeto comumente associado às ciências biológicas, muitas vezes se coloca questões parecidas às citadas por Friedman.
Como, por exemplo, na discussão da feminista Susan Bordo (1989) a respeito das apropriações culturais do corpo e da corporalidade. Segundo ela, o corpo deve ser analisado como um locus prático e direto de controle social, não somente um texto ou depositário de significados socialmente construídos. Bordo, a exemplo de outras feministas contemporâneas, inspira-se nas análises genealógicas de Foucault (1993) para perceber como o corpo, tido na cultura ocidental como artefato natural, anterior à cultura, na verdade é constituído pelo poder, sendo parte integrante de práticas sociais de poder.
Bourdieu (1997) analisa o corpo de forma bastante semelhante, ao debater seu conceito de habitus. O habitus é composto de predisposições incorporadas nos indivíduos. O corpo, nesse quadro teórico, é então foco de construções de práticas sociais significativas, não sendo inerte frente a imputações de sentido por parte dos sujeitos. A corporalidade pode ser vista não como portadora de signos apenas, mas como protagonista e local de materialização de concepções culturais, abrangendo desde gênero e raça até hierarquias de idade ou profissionais.
Autores como Butler (1990, 1993), inspiradas em Foucault e outros, fornecem também subsídios para esta discussão ao pesquisar a construção do gênero. Buscando escapar das oposições preestabelecidas natureza/cultura e corpo/mente, Butler constrói uma análise de como o corpo é naturalizado pela cultura ocidental, ao mesmo tempo em que hierarquias sociais baseadas em diferenças corporais são tornadas assim "naturais" e portanto tidas como imutáveis.
Em minhas pesquisas anteriores, na área de relações sociais de gênero (Monteiro, 2000a e 2000b), me centrei basicamente nas representações a respeito da masculinidade em revistas. Nesses esforços tive contato bastante intenso com o debate feminista em torno do conceito "gênero". O corpo, enquanto base para a formulação cultural de representações de gênero que fundamentam também hierarquias sociais está sempre presente nesses debates.
A intenção de pesquisar a ciência e como esta reconstrói o corpo é de certa maneira um desenvolvimento de minhas pesquisas anteriores com masculinidade. Pois se antes me centrei em representações midiáticas, a própria teoria feminista indicava um certo esgotamento desse tipo de pesquisa fundamentada no gênero (masculino e feminino), apontando um caminho mais frutífero naquelas instâncias onde ele efetivamente se construía, a biologia sendo uma das mais importantes. 
Pois se as hierarquias sociais codificadas no corpo através de uma ordem de gênero particular (que podemos resumidamente chamar de patriarcal, ou de preponderância do masculino sobre o feminino) são, a partir da biologia, naturalizadas, não basta somente estudar as representações de masculino e feminino codificadas na cultura (sob pena de constamentemente validar a oposição masculino/feminino como "natural"). 
Feministas como Judith Butler, Donna Haraway e Teresa de Lauretis (para citar as mais debatidas no Brasil) apontam para uma certa desconstrução das formas como o corpo é essencializado enquanto portador de um gênero, característica essa que, ao remeter a uma essência biológica, naturalizaria uma ordem hierárquica. O estudo que pretendo fazer de como o corpo é construído e reconstruído pela ciência portanto tem como pano de fundo esse caminho teórico percorrido em pesquisas anteriores, exposto resumidamente aqui. 
A nova genética se relaciona de forma íntima com as nossas concepções de corpo e de pessoa. Rabinow (1996) mostra isso ao analisar o caso John Moore vs. UCLA. John Moore, paciente num hospital universitário, processou a University of California at Los Angeles, UCLA, porque seus cientistas patentearam uma linhagem imortal de células produzida a partir de células retiradas de seu próprio corpo. Aqui entram em embate, segundo Rabinow, duas concepções de corpo/pessoa. Uma, própria do Cristianismo, que vê no corpo um lugar sagrado, repositório do espírito. Outra, desenvolvida no contexto do liberalismo capitalista, que vê o corpo e a pessoa como ator racional, como negociador contratual.

Today, for others, however, it is less "the body" than fragmented body matter which has potential value to the industry, science and the individual. The approach to "the body" found in contemporary biotechnology and genetics fragments it into a potentially discrete, knowable, and exploitable reservoir of molecular and biochemical products and events. By reason of its commitment to fragmentation, there is literally no conception of the person as whole underlying these particular technological practices. (Rabinow, 1996:150)

O aspecto econômico, como fica claro no exemplo acima, pesa muito nos rumos tomados pelas pesquisas do Genoma. Patentes que podem render bilhões de dólares para a indústria farmacêutica, por exemplo quando novos medicamentos são desenvolvidos a partir de pesquisas genéticas, são objeto de disputa ferrenha entre governos, multinacionais e instituições científicas. Pesquisadores do tema como Rabinow (1996) e Cunningham (1998) citam a estreita colaboração da comunidade acadêmica e as indústrias de biotecnologia no desenvolvimento do projeto Genoma. Nos projetos brasileiros houve a participação de agências de fomento governamentais (FAPESP) em associação com as indústrias da cana-de-açúcar e da laranja (os projetos Xylella fastidiosa e cana-de-açúcar, por exemplo, ambos já concluídos).
Cunningham (1998), seguindo esse raciocínio, analisa como práticas científicas, em simbiose com práticas comerciais, atuam de forma colonial em relação aos povos de países periféricos. Por exemplo, o Projeto Diversidade Genoma Humano, onde amostras de DNA de povos aborígenes do mundo todo são coletadas e armazenadas em linhagens imortais (células que se reproduzem indefinidamente). Tal riqueza genética, segundo a autora, está sendo pilhada de povos mais pobres, favorecendo pesquisadores e laboratórios farmacêuticos dos Estados Unidos, Europa e Japão. 
Multinacionais destes países, segundo ela, detêm atualmente 99% das patentes de produtos provenientes da biotecnologia. Enquanto isso, os países periféricos, que possuem 50% da biodiversidade mundial, são forçados a comprar produtos feitos no exterior a partir de plantas nativas. Assim, Cunningham discute como esse novo contexto altera as práticas políticas mundiais, a partir da organização de frentes de resistência às empresas multinacionais de biotecnologia, no contexto da atuação das Organizações Não-Governamentais (ONG's).
Um outro aspecto importante das relações entre o contexto capitalista e o corpo é apontado por Featherstone (1991). Segundo ele, a cultura de consumo atual coloca formas de interagir com o corpo novas e particulares, que cada vez mais associam o corpo a uma máquina que deve constantemente ser monitorada e controlada. Esse controle, exercido enquanto responsabilidade individual de cada um (associado a valores como beleza estética e saúde), na verdade compõe um aparato de controle e de docilização dos corpos (ver também Foucault, 1987). Saberes produzidos pela ciência se associam à grande indústria e ao aparato do Estado, fornecendo ferramentas de naturalização e legitimação de formas de monitoramento dos corpos na busca incansável de saúde e beleza.

The vast range of dietary, slimming, exercise and cosmetic body-maintenance products which are currently produced, marketed and sold point to the significance of appearance and bodily preservation within late-capitalist society. Consumer culture latches onto the prevalent self-preservationist conception of the body, which encourages the individual to adopt instrumental strategies to combat deterioration and decay (applauded too by state bureaucracies who seek to reduce health costs by educating the public against bodily neglect) and combines it with the notion that the body is a vehicle of pleasure and self-expression. (Featherstone, 1991:170)

Tais concepções maquinísticas ou instrumentais do corpo, próprias do contexto do capitalismo contemporâneo, podem estar associadas a iniciativas científicas como o Projeto Genoma. As técnicas provenientes dos desenvolvimentos da nova genética prometem ao público inusitadas formas de auto-controle do corpo, desde novas tecnologias reprodutivas, curas para doenças tidas como incuráveis até um maior controle sobre o próprio corpo. 
Esse controle associa o corpo à natureza de cada pessoa; portanto esse controle é vendido, pelo menos em alguns setores da mídia, como controle individual e pessoal sobre a natureza de cada um. Concepções da genética como "chave da vida" são portanto inevitavelmente incorporados a uma sociedade de consumo, e pensar como isto ocorre fornece mais subsídios para a compreensão do desenrolar do projeto, no âmbito da "ciência pura" praticada em laboratórios.

Conclusão

Como vimos no decorrer do trabalho, a pesquisa social de práticas científicas tem conseqüências bastante claras no que concerne aos pressupostos que devem fundamentar a compreensão de ciência. Efetuar uma pesquisa social de práticas científicas requer a formulação de um problema de pesquisa bastante particular, que recoloca a questão da ciência, tornando-a prática (e não desvendamento da verdade, por exemplo).
Embora nem todos os sociólogos da ciência concordariam com essa formulação proposta, creio que esse é o primeiro passo na compreensão de como podemos, enquanto cientistas sociais, colaborar para o estudo da ciência. Existem aí questões políticas bastante óbvias, as quais as feministas (cuja literatura me é mais familiar) têm sistematicamente explicitado. Outras possibilidades de se pensar essa questão política, como vimos no final do texto, são as associações entre instituições de pesquisa e conglomerados econômicos, que estão crescentemente redefinindo a prática científica enquanto atividade pragmática e instrumental, não mais como "ciência pura". 
Por isso mesmo creio que se torna cada vez mais urgente uma incursão de cientistas sociais no campo do estudo das biotecnologias, pelo potencial que tais ciências têm de recontextualizar nossas concepções mais arraigadas de natureza/cultura, de orgânico/mecânico e de criar novas bases para a forma como nos relacionamos com nosso corpo. Esses novos contextos, apesar do otimismo de muitos setores, nem sempre resultam em benefícios para a maioria. E somente a partir de uma crescente compreensão desses fenômenos é que poderemos melhor avaliar aqueles que queremos perseguir, e aqueles que queremos evitar.


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Notas:

1 Rabinow cita aqui o texto de Max Weber, "Science as Vocation", in H. Gerth and C. Wright Mills (eds.), From Max Weber (New York: Oxford University Press, 1946), p. 137.
2 Genoma é o conjunto de genes de cada espécie. Mapear ou sequenciar, nesse caso, significa detectar a ordem correta das bases nitrogenadas que compõem a molécula de DNA, presente no núcleo de toda célula. Essas bases (Adenina, Guanina, Citosina e Timina) codificam a produção de proteínas.
3 Ver por exemplo a reportagem "O mapa da vida" (Isto é, 1569, outubro de 1999), além das inúmeras notícias em todos os jornais brasileiros e estrangeiros, que seguem todos num tom muito semelhante.
4 A Xylella fastidiosa, causadora do amarelinho nas lavouras de laranja brasileiras, tem um impacto econômico importante na economia brasileira. A doença atinge 34% dos pomares paulistas, afetando uma indústria que movimenta cerca de US$ 2 bilhões anualmente, gerando 400.000 empregos diretos e indiretos no estado de São Paulo. O Brasil é o maior produtor de laranja do mundo com 34,8% da produção total, seguido pelos Estados Unidos, com 17,8% (fonte: "O mapa da Xylella", Jornal da UNICAMP, fevereiro de 2000, p. 7).
5 Entrevista concedida a Boris Casoy, em seu programa Passando a limpo, na Rede Record. Exibido em 05/03/2000.
6 O projeto está sendo tocado pela equipe do Instituto Ludwig no Brasil, além de cinco centros paulistas, onde são realizados os trabalhos de seqüenciamento: Instituto de Química da USP, Hemocentro da UNICAMP, Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, Escola Paulista de Medicina e Faculdade de Medicina da USP. Cada centro possui um seqüenciador de alta capacidade, todos coordenados por Andrew Simpson do Instituto Ludwig.
7 Ver "Genoma Especial: Projeto Genoma do Câncer", encarte de Notícias FAPESP, n.º 40, março de 1999 (disponível no site http://www.fapesp.br/encapg1.htm).
8 Open Reading Frames EST sequences. As seqüências de nucleotideos geradas por essa técnica tem o mesmo nome. EST são expressed sequences tags, ou etiquetas de seqüencias expressas. A diferença do ORESTES para outras técnicas é a sua capacidade de gerar seqüências de DNA que efetivamente codificam proteínas. Como coloca Simpson ("Genoma Especial: Projeto Genoma do Câncer", op.cit.), apenas 3% do genoma humano são genes, ou seja, codifica proteínas. São esses 3% os mais valiosos para a futura pesquisa genética.